NOVOS PARADIGMAS PARA A GESTÃO DA MANUTENÇÃO INTEGRADA ISQ NO PROJETO AIRMES

O projeto AIRMES [1], um sistema de sistemas para reduzir interrupções operacionais resultantes de falhas técnicas das aeronaves, está integrado  no programa europeu Clean Sky 2 (CS2). Aborda a otimização de diversas fases das operações de manutenção aeronáutica e conta com um orçamento total de cerca de 6 milhões de euros, correspondendo a um fnanciamento de 4,6 milhões  de euros. No projeto colabora  um consórcio de 12 parceiros de seis países europeus, sendo liderado pela operadora nacional TAP Portugal.

O projeto AIRMES pretende desenvolver tecnologias de prognósticos, aplicações para dispositivos móveis de apoio à manutenção e um ambiente colaborativo de partilha de informação, para uma melhor comunicação entre atores-chave da cadeia de valor da manutenção aeronáutica. O projeto AIRMES, juntamente com o projeto DEMETER [2], selecionados no âmbito da 1ª Call for Proposals (CfP) do CS2, integram o programa de trabalho da Plataforma 3 – WP3.6 ADVANCE do CS2 [3], sendo este um tópico estratégico na plataforma demonstradora (IADP) Large Passenger Aircraft (LPA), liderado pela Airbus.

A plataforma ADVANCE aborda temas como a Definição e Melhoria da Manutenção, Manutenção Baseada na Condição, Big Data, Gestão da Configuração e Execução da Manutenção. É ainda importante salientar que o projeto AIRMES é o projeto com maior participação nos diversos pacotes de trabalho que compõem a plataforma ADVANCE.

O ISQ participa nas atividades do projeto AIRMES para o desenvolvimento, integração e demonstração em ambiente operacional real, de aplicações móveis que otimizam a realização das operações de manutenção, estando estas integradas na vertente de Execução da Manutenção. Estas melhorias serão obtidas através da integração de soluções móveis que permitam a correta captura e compreensão de informação relevante para as tarefas de manutenção, que guiem e apoiem o técnico de manutenção ao longo do pro-cesso de inspeção e na intervenção em aeronaves. O desenvolvimento de uma plataforma protótipo de realidade virtual através da implementação de modelação 3D e algoritmos de animação para auxílio na consulta de documentação e procedimentos de manutenção serão as principais atividades realizadas pelo ISQ, contribuindo ainda com o seu já longo e vasto conhecimento na área da Gestão da Manutenção Industrial para o projeto em geral.

Sistemas que utilizam realidade virtual para o auxílio de operações de manutenção já existem desde 1970 com numerosas aplicações, contudo a sua aplicação no sector aeroespacial, nomeadamente em operações de manutenção, encontra-se ainda num estado de pouca maturidade, esperando-se nos próximos anos um aumento de soluções (software e hardware) que permitam simular, com um alto grau de fidelidade, diversas etapas do ciclo de manutenção, tais como desmontagem, reparação, instalação, entre outras.

Este tipo de sistema pode ser enriquecido através da adição de informação 2D relativamente ao material e processos necessários para realizar a operação de manutenção, podendo assim oferecer um sistema de apoio à decisão. Adicionalmente, um sistema de apoio à decisão baseado em tecnologia de realidade virtual pode também ser utilizado como uma ferramenta de apoio à formação e avaliação dos técnicos. Esta ferramenta possibilita ainda um troubleshooting contínuo durante o treino do técnico, permitindo o acesso a dados de grande importância, tais como estatísticas de erros, tempos de execução e previsão de carga de trabalho e custos associados. Com estes dados torna-se também possível obter métricas de desempenho dos técnicos para avaliação futura.

Um dos maiores desafios na aplicação desta tecnologia está relacionado com a documentação técnica, uma vez que a sua atualização e consulta são tarefas que exigem muito tempo e estão sujeitas a erro humano. O projeto Europeu TATEM, no qual o ISQ também participou, além de ter identificado estes factos, estimou ainda que entre 15 a 20% do tempo do técnico era dedicado à procura da informação pertinente e necessária para a realização da tarefa de manutenção, tendo, no final do projeto, proposto o desenvolvimento de software focado no processo de manutenção como medida de mitigação.  Alguns dos erros identificados resultam da informação ser veiculada em formato 2D, pouco ajustado à complexa realidade tridimensional das atividades de manutenção. Assim, a apresentação do problema e da sua solução em 3D facilita a perceção do mesmo e a compreensão das opções de intervenção.

O desenvolvimento deste tipo de software possui também limitações que o projeto AIRMES irá abordar e solucionar. Exemplos destas limitações são as incompatibilidades com documentação preexistente, escasso fornecimento de documentação contextualizada, requisitos mais exigentes relativamente ao nível de informação e falta de validação operacional.

Por outro lado, a introdução de tecnologias e procedimentos estranhos ao normal funcionamento da linha de manutenção podem criar nos técnicos alguma expectativa na sua utilização.

A obtenção de documentação verdadeiramente contextualizada, ou seja, ter disponível a informação certa, adequadamente dimensionada e em termos temporais e espaciais (altura e local certo), para o utilizador, neste caso o técnico de manutenção, é um dos objetivos do ISQ a atingir no AIRMES. Para o concretizar, o ISQ fará uso das tecnologias de informação, nomeadamente as arquiteturas orientadas para o serviço (service-oriented arquitectures – SOA) e software como serviço (software-as-a-service – SaaS), em conjunto com aplicações móveis instaladas em ferramentas como smartphones ou tablets. O impacto destes desenvolvimentos traduzir-se-á numa redução significativa do tempo de procura de documentação e na diminuição da probabilidade de erro humano nas inspeções de aeronaves.

MARGARIDA PINTO

MARGARIDA PINTO

RESPONSÁVEL DO DEPARTAMENTO DE INVESTIGAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Licenciada em Engenharia Metalúrgica e de Materiaispelo IST, Mestre em Gestãoe Qualidade de Materiais (UNL), é responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento do ISQ. Iniciou a sua carreira em 1990 como investigadora na então Direção de I&D do ISQ, na área das Tecnologias de Produção, tendo exercido funções desde 2002 como Gestora de Desenvolvimento para a área da I&D e Coordenadora de Projetos de I&D. É Delegada Nacional ao Horizonte 2020 para o Programa dos Transportes, na vertentede Aeronáutica
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