Tecnologia 4.0 trava riscos de contaminação no milho

UMA DAS CULTURAS ARVENSES MAIS IMPORTANTES DE PORTUGAL, O MILHO TEM SOFRIDO A AMEAÇA DAS MICOTOXINAS. ESTAS SUBSTÂNCIAS TÓXICAS TÊM CONSEQUÊNCIAS GRAVES PARA A SAÚDE DOS ANIMAIS, MAS TAMBÉM PARA A SAÚDE HUMANA. PARA GARANTIR A QUALIDADE E SEGURANÇA NA FILEIRA DO MILHO NACIONAL FOI CRIADO O PROJETO QUALIMILHO, QUE PRETENDE DESENVOLVER MODELOS DE PREVISÃO E UM NOVO PROCESSO DE APOIO À DECISÃO, O MICOTOX ALERT.

A nível mundial, 25%  da  produção  de  grãos,  especialmente  de  milho,  fica comprometida devido à presença de micotoxinas. Este é um problema grave de saúde pública, já que estas substâncias tóxicas estão associadas a  problemas  graves  na  saúde  dos  animais  –  podendo  levar  à  morte  –  e  também  a  consequências nocivas na saúde dos humanos.

Os dados  são  da  FAO  (Food  and  Agriculture Organization of the United Nations) e este problema é considerado como um dos maiores riscos do Sistema de Alerta Rápido para Alimentos para Consumo Humano e Animal da União Europeia (RASFF). Pode ser potenciado por fatores externos, como o stress térmico ou hídrico, as pragas e doenças ou as práticas culturais inadequadas. Em consequência disso, perdem-se colheitas,  há  uma  deterioração da saúde dos animais, iminui a rentabilidade reprodutiva e a segurança dos produtos.

Para Portugal, este é um problema particularmente crítico, uma vez que o milho é uma das culturas arvenses mais importantes para a economia nacional, ocupando uma área que ronda  os 150 mil hectares e que está presente em cerca de 67 mil explorações agrícolas distribuídas por todo o país.

Não sendo possível eliminar as micotoxinas, foi desenvolvido um projeto que se propõe enfrentar os riscos de contaminação na pré e pós-colheita. Chama-se QualiMilho e visa enfrentar a  problemática  das  micotoxinas  ao longo da fileira de produção com o  objetivo  de  implementar  estratégias  inovadoras  e  sustentáveis  que  garantam  a  qualidade  e  a  segurança na cadeia de valor do milho e dos seus derivados. Desta forma, pretende-se  diminuir  o  aparecimento  dos  fungos  recorrendo  ao  envolvimento  de todos os intervenientes da cadeia.

Uma das entidades envolvidas neste projeto é o ISQ. Tendo em conta a gravidade das micotoxinas e a realidade do setor, o ISQ irá otimizar as práticas agrícolas através da monitorização de temperatura  e  de  humidade  no  processo de maturação do grão de milho. Além disso, com base em ferramentas da 4ª Revolução Industrial (I4.0), o ISQ contribuirá para o desenvolvimento do sistema de apoio à decisão de modo a garantir a qualidade e a segurança na fileira nacional do milho.

Nesse sentido, além de tirar partido de sensores e outros dispositivos, serão desenvolvidos modelos de previsão que permitam sugerir conclusões e apoiar a  tomada de decisões no que se refere ao tema das micotoxinas. Ou seja, grandes  quantidades  de  dados  (big  data) serão alvo de um processo de análise e modelação para serem identificados padrões (data analytics) que venham a responder aos desafios do projeto.

O projeto integra as etapas de pré e pós-colheita para orientar, o mais cedo possível, a valorização ideal dos lotes de milho em função da qualidade e níveis de contaminação, garantindo a introdução segura na cadeia alimentar e nos alimentos compostos para animais.

Para além de garantir a segurança e a qualidade do milho, o MICOTOX ALERT ambiciona também levar a um aumento da produtividade e competitividade no setor.

SMART FARMING E O QUALIMILHO

O projeto QualiMilho insere-se dentro  do  conceito  de  smart  farming,  regendo-se por desafios de sustentabilidade e de competitividade.

Algumas  explorações  de  milho  detêm  potencialidades  produtivas  recorrendo à agricultura de regadio, sendo que, no total, as explorações nacionais têm atingido elevados níveis de produtividade (próximos das 16  toneladas  por  hectare).  Por  sua  vez,  esta  capacidade  de  produção  terá que ser escoada cumprindo elevados padrões de qualidade impostos pela legislação e pelo mercado.

O  conceito  de  smart  farming pretende  que  a  produção  agrícola  funcione  como  um  conjunto  de  sistemas de produção conectados ebaseados no conhecimento. Nestas explorações  inteligentes  são  utilizadas tecnologias de precisão, mas também redes inteligentes e ferramentas de gestão de dados. O objetivo é usar todas as informações e conhecimentos disponíveis de forma a permitir a automação de processos mais sustentáveis na agricultura. Estes processos podem envolver, por exemplo, consumos de energia, consumos de água, dosagem de nutrientes, fitofármacos, controlo de pragas ou resíduos.

As tecnologias associadas ao smart farming combinam equipamentos de precisão, internet of things, sensores e atuadores, sistemas de posicionamento geográfico, big data, veículos não tripulados, como drones, entre outras tecnologias e técnicas. O objetivo é oferecer uma produção agrícola mais eficaz e sustentável e uma gestão mais eficiente.

MICOTOXINAS

O QUE SÃO E COMO AFETAM OS ANIMAIS E OS SERES HUMANOS?

As micotoxinas resultam do metabolismo de fungos e estão associadas a problemas graves na saúde animal, uma vez que têm efeito direto na qualidade das produções, nas matérias-primas e nas rações.

As consequências para os animais podem-se fazer sentir ao nível do peso, fertilidade, resistência a doenças, em geral por imunodepressão, podendo causar a morte.

Em última instância, as micotoxinas têm também consequências nocivas para a saúde humana. Os humanos também são afetados, em particular, pela fumonisina, aflatoxina, deoxinivalenol (DON) e ochratoxina A, que são teratogénicas, mutagénicas e carcinogénicas e cujos limites máximos nos alimentos estão regulamentados (Reg. CE nº 1126/2007).

QUALIMILHO

QUEM PARTICIPA NO PROJETO?

O projeto QualiMilho é promovido pela ANPROMIS (Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo), a associação que convive de perto com a realidade do setor do milho. Além do ISQ, o projeto conta também com a parceria da AGROMAIS, do INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), da Sociedade Agrícola da Quinta da Labruja, da Sociedade Agrícola de S. João de Brito, da Quinta da Cholda e dos Agricultores Arminda Henrique de Souza Luz e Maria Francisca Luz Lino Caetano.

Por Sílvia Vara, Coordenadora de Investigação e Desenvolvimento Laboratórios do ISQ.

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